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As “meninas do RH”

Por JC do RH
24/12/19 - 08:00

Quando comecei a trabalhar - como estagiário, no fim da década de 70 - fui apresentado ao universo corporativo, no qual aprendi muitas teorias, técnicas, regras e conceitos. Mas, infelizmente, também travei contato com alguns preconceitos. Um desses preconceitos se manifestava na forma pela qual alguns dos meus antigos colegas (poucos, felizmente) se referiam às pessoas que trabalhavam na área de Recursos Humanos: elas eram chamadas, simplesmente, de “as meninas do RH”.

Essa referência, aparentemente inocente, simpática e carinhosa, na verdade era usada, na época, de uma maneira depreciativa, que despersonalizava, que desvalorizava. Expressava um certo desdém - nada velado - por aqueles que não estavam na “linha de frente”; ou na “verdadeira batalha”. Afinal, os ambientes competitivos não eram para “juvenis”. O lugar era apropriado para os chamados “tigrões”, os profissionais. E quem, na visão desses últimos, não “se garantisse”, faria melhor se fosse para as áreas de apoio, dedicando-se às funções consideradas menos nobres. Dentre essas, Recursos Humanos.

E assim surgiram “as meninas do RH”, um estereótipo tolo, como são quase todos os estereótipos. Havia, claro, muitas jovens profissionais ingressando no mercado de trabalho; e grande parte delas com formação em Psicologia (esse fato veio a tornar-se um elemento adicional do próprio estereótipo). Elas eram, obviamente, acostumadas a trabalhar com técnicas e racionalidades bem diferentes daquelas com as quais os tais “tigrões” estavam familiarizados. E se elas não mostravam aptidão (na verdade, era apenas falta de interesse) para as áreas vistas como mais nobres e competitivas, azar o delas...

Já faz 12 anos que eu, após trabalhar em diversas áreas de Negócios, no mercado financeiro, por um quarto de século, voluntariamente redirecionei minha carreira para o RH. Tendo atuado anteriormente em várias empresas, eu sempre mantivera bom relacionamento com as áreas de Gestão de Pessoas; mas apenas como parceiro e cliente interno, e não como responsável por esse desafio. Ao assumir pela primeira vez uma equipe de RH, com quase 30 pessoas, comecei a me aproximar ainda mais desse universo, e a confirmar aquilo que eu já sabia de há muito: que eram de fato maravilhosas aquelas pessoas, aqueles profissionais tão especiais. E a minha admiração só vem crescendo desde então.

Não vou citar nomes de pessoas reais, mas me recordo de cada uma, e do que aprendi com elas. A pessoa a quem chamo aqui de EQUILIBRADA me ensinou a ser mais tolerante, menos rígido. A que eu chamo de VALENTE reforçou a minha crença de que é fundamental ter atitude firme, e lutar até o fim por aquilo em que acreditamos, sem nunca abaixar a cabeça, sem ter medo de nada, quaisquer que sejam as consequências. A SÁBIA me mostrou técnicas e conceitos novos, que preencheram algumas lacunas na minha formação. A DISCRETA me mostrou a importância de conhecermos bem a nós mesmos, a fim de podermos, assim, conhecer melhor o outro. A pessoa na qual sempre penso como INTELIGENTE me mostrou que, se estivermos em paz conosco e com as pessoas que realmente importam, os aborrecimentos diários serão mais facilmente tolerados e não nos farão nenhum mal, pois não permitiremos que nos afetem. Com a pessoa a quem chamo aqui de DEDICADA, aprendi a ser um bom ouvinte e a acolher quem me procurava; e com a pessoa PRUDENTE, que sempre me desafiou e incentivou a ser um profissional (e um ser humano) a cada dia melhor, aprimorei meu estilo de gestão.

E desse modo eu poderia continuar a mencionar as muitas qualidades das pessoas de RH que conheci, listando uma sucessão quase interminável dos aprendizados que tive. Cada uma dessas pessoas tem seu jeito próprio, seu dom, seu conhecimento; mas, acima disso, todas elas sempre mostraram uma grande disponibilidade para trocar experiências e partilhar caminhos. A todas essas pessoas, sem exceção, serei grato para sempre.

Acredito que a expressão “as meninas do RH” não seja usada atualmente naquele sentido depreciativo que conheci há 40 anos. Hoje em dia, já não vejo tão fortes os mesmos preconceitos; apenas raros traços, aqui e acolá, dessa forma antiga – e, ao meu ver, errada - de pensar. Há enorme consciência, nas empresas mais modernas, da importância da Gestão de Recursos Humanos, e da necessidade de se valorizar adequadamente os profissionais da área. As pessoas de RH já passaram, em muitas organizações – de todos os setores e portes -, a se reportar diretamente ao CEO; e a ter assento garantido nos Comitês Executivos. Aos poucos, começam a integrar também os Conselhos de Administração. As chamadas “meninas do RH”, aquelas mesmas pessoas que alguns prefeririam que fossem sem rosto, sem voz, sem opinião e sem alma, felizmente agora ocupam seus merecidos lugares. O que hoje em dia se vê, e é assim que as reconheço e homenageio, são pessoas e profissionais valorosos da área de RH, com muito a contribuir e muito a nos ensinar. Ponto final.

Vou incorrer em uma (ao menos aparente) contradição: vou usar a mesma expressão que tanto critiquei aqui e vou afirmar que, com respeito, admiração e uma indisfarçável ponta de orgulho, eu me permito chamar de “...meninas e meninos do RH” os profissionais dessa área que trabalharam comigo. E por que afirmo isso? Bem, a referência à sua juventude tem óbvia origem na nossa diferença de idade (eu já tinha 49 anos quando ingressei nessa área); mas principalmente porque, ao fazê-lo, eu os estou elogiando, e não depreciando. Pertencer ao RH deve ser sempre motivo de orgulho - como foi para mim – e, acreditem, não é nem um pouco fácil.... a área de Recursos Humanos é para os fortes!

É verdade que os “tigrões” ainda têm (e sempre terão, é claro) o seu espaço no mundo corporativo; mas se enganam redondamente aqueles que acham que são esses “tigrões” os únicos guerreiros no dia a dia de uma empresa. Eles não são, de modo algum, os únicos; e eu sei disso porque já fiz parte tanto de um grupo quanto do outro. São duas “tribos” muito diferentes; mas ambas são repletas de valorosos e valentes guerreiros.

E, assim como disse um velho Timbira, em um poema de Gonçalves Dias que fala exatamente sobre valentes guerreiros, eu vos digo prudente:

“- Meninos, eu vi!”.


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