A vida invadida pela non order

Por Hamilton Werneck - 17 de Dezembro de 2018, 09:40

Até anos atrás, aprendíamos que tudo seguia uma ordem, onde geralmente começávamos a fazer as coisas, pelo começo. Tudo tinha princípio meio e fim. A antiga filosofia de Tomás de Aquino, estruturada na Idade Média, propunha como argumento para provar a existência de Deus, a ordem e a finalidade. No século XX começamos a estudar a teoria do caos. Aprendemos que o mundo é caótico. Hoje, temos a sensação de que tudo está em desordem, não escapando as pessoas ao espanto diante de tantas inversões.

Antes, a construção começava pelos alicerces. Hoje, uma cortina atirantada pode ser construída e os alicerces virão depois. Antes, surgiam as doenças, depois os remédios. Hoje, existem remédios prevenindo doenças que não existem.

Diante de um livro, uma jovem começava a ler pelo final da história. Quando perguntei a razão de tal procedimento ela me informou que estava verificando se o final era compatível com seus desejos. Se fosse, leria; se não fosse, nem daria início à leitura. Vi um outro livro escrito pela renomada doutora Jussara Hoffmann. Até a metade, seguia a ordem conhecida. A leitura continuava iniciando-se no final do livro e vindo até o meio, revirando-o de cabeça para baixo. Era uma questão física desta non order.

Quando li o Código da Vince de Dan Brawn percebi que o autor começava uma história, parava e iniciava outra. Então estabeleci uma outra ordem de leitura: quando o autor mudava a história eu continuava procurando o seu recomeço em capítulos à frente, até chegar ao final. Assim fiz durante toda a leitura. Descobri duas coisas:

Uma, ser o livro escrito e composto de inúmeras histórias que, ao final, a nada levavam, nada solucionavam; outra, que este autor é tão fantástico que conseguia prender minha atenção pela sua narrativa envolvente, embora soubesse que a nada chegaria.

Preocupado com a invasão desta non order na vida diária, fiz outra experiência em leitura. Diante do livro de Edgar Morin, “O capelão do diabo”, fui ao índice sobre os assuntos e os escolhia, procurando, em seguida, as páginas correspondentes àqueles conteúdos. Não me importava a ordem das páginas, da 215, voltava para a 38 e seguia para a 117. De início nada aconteceu, no entanto, depois de certo tempo de leitura foi estruturado em minha mente a ideia principal de Morin neste livro. Um processo de sínteses que faziam surgir outras teses e antíteses, revelando nesta dialética hegeliana o pensamento do autor. Sentia-me como os adeptos desta non order. Estabeleci, para mim mesmo, outros caminhos, para percorrer o mesmo espaço literário.

Uma sociedade que se acostumou à pesquisa operacional que levou os aliados à vitória na segunda grande guerra mundial, conheceu os sistemas “pert time e coust”, desembocou no projeto “gemini” que é o responsável pela chegada do homem à lua, daí aos sistemas simples e complexos dos computadores, partindo do modelo básico de Robert Glaser de 1962, atravessou a fronteira do século convivendo com a non order.

Convivência difícil, esta que se estabeleceu. Felizmente, em meio às demandas confusas surgiu a grande ideia entre a fronteira da engenharia e psicologia: a resiliência. Na verdade, resiliência é ser capaz de retornar à situação de equilíbrio, anterior a uma situação traumática; resiliência é ser capaz de desempenhar mais de uma tarefa com o uso da mesma energia.

Assim, mesmo fora de ordem ou com outra ordem que desafie a anterior, a resiliência consegue permitir a convivência entre épocas diferentes, pessoas diferentes e caminhos complexos que fogem à linearidade desejada através de séculos.

Artigo extraído do livro DESAPRENDER, REAPRENDER E DESOBEDECER - Wak Editora - Rio de Janeiro.


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