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Um caso diplomático

Por George dos Santos Pacheco
20/12/23 - 09:14

“A diplomacia sem as armas é como a música sem os instrumentos” (Otto von Bismarck)

Eu tinha dez anos de idade. Há alguns poucos, havia descoberto, com um frêmito de prazer, uma fonte inesgotável de sadio divertimento: restando exíguo tempo para o Natal, esgueirava-me feito um soldado bem treinado ao quarto de meus pais, a fim de vasculhar o guarda-roupa em busca do meu presente. Desembrulhando-o cuidadosamente, com dedos leves e precisos, e entretinha-me por adoráveis minutos para, enfim, embrulhá-lo outra vez e guardá-lo, exatamente no mesmo lugar. Meus pais jamais desconfiaram disso, até aquela tarde, aquela fatídica tarde de dezembro.

O ano era 1991. Naquela época o mundo viu, ainda sob o fantasma da Guerra Fria, bombas explodirem no Oriente Médio. A molecada não compreendia bem a gravidade dessas coisas, evidentemente, tampouco o significado da palavra “diplomacia". Tudo não passava de um enredo de filme de ação, inspiração para vespertinas e inocentes brincadeiras. Nada mais que isso.

Abri a porta, cuidadosamente, para que as dobradiças não rangessem, fazendo o mesmo ao deixar que a trava se encaixasse lentamente no entalhe do componente metálico no portal. Segui pé ante pé até o móvel de madeira e parei em frente, cruzando os braços após ajustar a faixa vermelha na testa, ouvindo nos confins de minha mente pueril o leitmotiv do soldado do cinema. Embora meus pais não soubessem, eu já era suficientemente maduro para não acreditar em Papai Noel, sagaz na mesma medida para intuir que o presente desse ano estava na parte de cima do armário, a fim de ocultá-lo melhor de mim. Pela minha breve experiência de anos anteriores, estaria envolto em alguma camisa, toalha ou fronha.

Eu já me preparava para iniciar minha investida quase militar, quando ouvi passos apressados pela escada e risadinhas. Droga! Fui um tolo em não prever tal situação. O que fazer agora? Não seria razoável esconder-me entre as roupas, não havia espaço suficiente para isso. Sair pela janela do segundo andar parecia fora de cogitação, por mais aventureiro que eu fosse. Indeciso e vacilante, sapateei por alguns segundos, enquanto raciocinava em como me safar dessa, restando como alternativa apenas o termo sob a cama.

Mergulhei segundos antes de a porta se abrir, cobrindo a boca com as mãos para não denunciar minha respiração acelerada. As pernas lisas e delgadas de minha mãe vinham à frente, seguidas das peludas canelas do meu pai, ela de sandália de borracha, unhas pintadas de azul celeste, e meu pai, simplesmente descalço.

– Seu doido! – disse minha mãe ao deitar-se na cama, numa empolgação contida que dava às suas palavras uma entonação ligeiramente artificial. – E se ele chegar?

– Ele foi brincar com o filho do vizinho. Não volta tão cedo… – argumentou papai, subindo à cama de gatinho. Eu podia arrumar um bico de engraxate ou de vendedor de amendoim à tarde, que eles nem notariam; bastava que eu dissesse que ia brincar com meu vizinho.

– A gente precisa ser rápido, ele pode voltar a qualquer momento… – contrapôs entre beijos, numa cuidadosa elocução, da qual meu pai não podia se esquivar. Intrigado, virei-me de barriga para cima, com a treliça de madeira a um palmo do rosto. “Ora, mas vejam só...”

– Fica tranquila, que eu vou ser rápido, mas eficaz… – disse o homem num sorriso lascivo, embora eu só fosse aprender o que é isso anos mais tarde. Mas o que diabos eles queriam fazer tão rápido assim? Grassava em minhas veias uma inquietante tensão, quando papai sugeriu, entre estalos molhados de breves beijos e suspiros, o inconcebível e inacreditável: “Que tal a gente dar para ele um irmãozinho neste Natal?”. Não, não e não!

Saí apressadamente debaixo da cama e não houve tempo de mamãe responder. Sentindo as lágrimas brotarem vigorosamente, gritei a plenos pulmões, num pranto sofrido: “Eu não quero um irmãozinho não, pai, eu quero o General Flagg!”, e eles saltaram desconcertados, mamãe abotoando a camisa e papai suspendendo o shorts.

“Acho melhor você se comportar direitinho, hein, rapaz? Senão, não ganha presente no Natal”, foi a frase preferida deles durante o ano seguinte. O mesmo ano em que, inclusive, nasceu o meu irmão, evento que culminou na minha perda de monopólio das atenções. Mas nem tudo estava perdido: papai passou a sempre me mostrar o presente antes do Natal, após eu prometer jamais contar para mamãe sobre as revistas de mulheres nuas escondidas entre o estrado da cama e o colchão. Diplomacia pura.


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