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Os fantasmas se divertem

Por George dos Santos Pacheco
17/01/24 - 09:23

“É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade.” (Virginia Woolf)

“Mal assombrada?”, pensou num calafrio. Teria sido uma brincadeira do vizinho? Não, não. Era um sujeito sério... Entretanto, como não soubera disso antes? Deus do céu! Outrora não se importaria com esse tipo de coisas… “invencionices”, diria. Desta feita, sentiu-se profundamente impressionado: o corpo fremiu num arrepio sinistro ao ouvir o igualmente sinistro depoimento do homem. Putzgrila! “Basta!”, refletiu, afinal, maiores detalhes pareciam-lhe simplesmente insuportáveis.

Numa abafada manhã carioca, o anúncio classificado chamava a atenção na folha do jornal: era o tipo de negócio que raramente se cai ao colo – e que não se pode perder. Uma casa “cercada pelo verde da Mata Atlântica, em um dos bairros mais bucólicos e aprazíveis da pequena vila da Região Serrana”, afirmava o reclame. Com um grande quintal gramado com jardim, árvores frutíferas, e água de nascente, o recanto de tranquilidade inimaginável na capital, possuía cinco cômodos ligados por um corredor: sala de estar e jantar com lareira, três quartos (sendo uma suíte), banheiro social, copa-cozinha ampla, varandão com área de lazer e de serviço, churrasqueira e fogão a lenha. E tudo isso por uma pechincha!

“Acho vocês muito corajosos...”, afirmara o vizinho, enquanto degustava um filtro amarelo naquele eventual encontro à calçada. “Como é que é?”, pensou o homem, franzido o cenho, intrigado. Afinal, aquele era um sonho antigo: largar o emprego na metrópole e cultivar produtos orgânicos com a esposa num rincão qualquer. Um luxo para poucos. Quem sabe? “Até que não seria má ideia...”, balbuciou a mulher, os olhos rutilando, num crescente e surpreendente entusiasmo. Foi estranho ouvi-la dizer aquilo, afinal, geralmente não concordava de imediato com suas propostas – que mulher concorda? Mas ele estava tão empolgado com a possibilidade de livrar-se da violência e da vida agitada da cidade grande que nem levou isso em conta.

“Corajosos?”, perguntou, por fim. “A casa, né? Poucas pessoas teriam coragem de comprar uma casa... mal assombrada”.

“Mal assombrada”, repetia o vizinho feito um eco em sua mente. Caminhava a passos pesados para casa, meditativo e intrigado, os envelopes de contas na mão. “Que cara é essa? Parece que viu um fantasma...”, perguntou a mulher. Engolira em seco. Não teve coragem de contar história tão medonha para a esposa e jamais teria. Naquela noite, não conseguiria dormir – e assim seria por muitas e muitas noites. Tudo mudara a partir de então... todo aquele encanto se perdera, todo o fascínio, toda paz e tranquilidade que tanto sonhou se foram, num estalar de dedos.

Que poder têm as palavras! Tudo desmoronou por efeito de uma única frase: “uma casa mal assombrada". Sentia-se perseguido, o tempo inteiro. Passou a ouvir sons estranhos, gemidos, pedidos de socorro. Portas e janelas batiam sem qualquer explicação lógica; os objetos caíam, quebravam. Pairava na atmosfera do lar uma espécie de ranço, uma aura mórbida e sinistra que tornava tudo muito sombrio.

Por fim, passou a questionar a própria sanidade. Estava ficando louco. Talvez fosse isso. O melhor para eles (decidiu-se por conta própria) era deixar aquele lugar o mais rápido possível. Debalde, tentara convencer a esposa de todo modo a se mudarem dali. A mulher era irredutível, contudo, parecia hipnotizada, como que enfeitiçada por algo sobrenatural, que a obrigaria a cumprir um destino terrível... Deus do céu! Ele precisava fazer alguma coisa. Vendeu a casa à revelia da esposa, alegando um “negócio que raramente se cai ao colo – e que não se poderia perder”.

Alívio? Evidente que não. Sentia-se perseguido. Portas e janelas batiam sem qualquer explicação lógica; objetos caíam, quebravam. Pairava na atmosfera do lar uma espécie de ranço, uma aura mórbida e sinistra que tornava tudo muito sombrio. A verdade é que a maioria de nós é facilmente sugestionado por boatos, notícias falaciosas ou brincadeiras de mau gosto. Com aquele homem não seria diferente. Caso ouvisse na fatídica tarde que a casa estava infestada de pulgas, teria sentido comichões nas canelas. Ele demorou a perceber que não era a casa, assombração, ou qualquer outra coisa. Os fantasmas, que tanto temia, estavam dentro de sua própria cabeça.


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