O brilho eterno de uma mente sem lembranças

Por Rachel Rabello
17/09/18 - 11:08

O incêndio no Museu Nacional foi uma tragédia simbólica:na semana da independência, a casa de D. Pedro em chamas. Em ano de eleição, nosso passado reduzido a cinzas. É o emblema do descaso de nossos governantes com a cultura e a pesquisa. Na era da pós-verdade, o registro dos fatos históricos se faz cada vez mais imprescindível. Ouvi, poucos dias antes do incêndio, um candidato à Presidência da República dizer que os portugueses nunca pisaram na África e que o passado já passou, ele quer saber é daqui pra frente... Algo como “quem vive de passado é museu”. A maior prova de que isso é uma inverdade é o incêndio: museus precisam de subsídios para existirem. O passado é sua matéria-prima, mas não é o suficiente para sustentar as paredes de pé. Para tornar esse dito popular um pouco mais justo, diria que quem vive de museu é o passado. Ele só vive nos museus, nos livros e na memória daqueles que o vivenciaram. Mas e aqueles que não o viveram? Como podem saber sobre sua história e ancestralidade sem livros e museus? É preciso não esquecer. E, 15 dias depois dessa tragédia, parece que já a esquecemos...

Por isso resolvi escrever agora: porque é preciso não esquecer. Transcrevo aqui o poema que Matheus Mendes, filósofo, poeta, professor e meu amigo, escreveu:

Queima Nacional

Canta a Deusa às Musas invertidas

A cólera de Lethes, a moderna filha:

Museográfica flama, ars do passado,

Da ruína da história, um esquecimento

Da Memória. Musa chorada sob fina chuva

Em pira melancólica que fabrica a imagem

Nua de um edifício sedimentado pelo barro

Movente da chama. Se chamado o Verbo, a Ira

De Ares, mártir das mínimas e simplórias

Tragédias humanas. Mítica ode que Luzia

Em final silencioso os estalidos consumidos

À cova rasa desse segundo genocídio,

A convivência com o passado (um estampido)

Por cinzas soterrado, caveira de granito

Naufragada no fogo do sufoco. Se esqueço,

Já não sabemos. Opacos, se não lembramos

A dimensão da perda, a queda de Alexandria

Que retumba pelas negras paredes condenadas

Como as línguas novamente jamais evocadas,

Se algum dia pelos sambaquis já ouvidas,

Seus gritos enfurecem a Deusa morticínia!

Matheus Mendes

Na mitologia grega, Lethes é uma deusa, a personificação do esquecimento, cujo nome foi dado ao rio onde as almas mergulhavam ao adentrar o reino profundo dos mortos. Neste poema, as musas evocadas não são aquelas de Homero, são musas invertidas. A Deusa canta às musas do silêncio (porque o esquecimento emudece). Ela canta a cólera de Lethes, filha de Eris, a deusa da discórdia e de todos os males. Lethes é a “moderna filha” de todos os males: é o esquecimento.

O poema se desenvolve como se descrevesse como ela perdeu a memória: o incêndio, “museográfica flama”. Matheus faz um jogo entre o nome dado à mulher de 11 mil anos, Luzia, e o verbo luzir: “Mítica ode que Luzia/Em final silencioso os estalidos consumidos/À cova rasa desse segundo genocídio”. Luzia é o nome da Santa protetora dos olhos e da visão, o oposto à cegueira do esquecimento. E qual seria o primeiro genocídio? E por que a palavra genocídio se aplicaria nesse contexto? Porque a memória é humana e é coletiva. O incêndio no Museu Nacional foi um genocídio, assim como o incêndio na Biblioteca de Alexandria, por isso é o segundo.

De todas as ricas imagens do poema de Matheus Mendes, a que ficou em mim foi Lethes. E me fez lembrar do fragmento de outro poema, de Alexander Pope. Para concluir este texto, deixo-o aqui:

Feliz é o destino da

inocente vestal!

Esquecendo o mundo,

e sendo por ele esquecida.

Brilho eterno de uma

mente sem lembranças.

Toda prece é ouvida,

toda graça se alcança.

Alexander Pope

Neste setembro sombrio, deixo aqui a minha prece: que este passado incendiado não seja esquecido e nos sirva de lição para que outros passados sobrevivam. Este é o papel dos museus.


O Portal Multiplix não endossa, aprova ou reprova as opiniões e posições expressadas nas colunas. Os textos publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores independentes.


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