McCartismo Tupiniquim

O estrago das fake news aliadas às fake views

Por Conrado Werneck Pimentel - 27 de Outubro de 2018, 12:40

As declarações de Bolsonaro no último domingo representam, de fato, um Brasil distópico de 40, 50 anos atrás, como ele pretende que sejamos.

Na década de 1950, o senador norte-americano Joseph McCarthy realizava uma patrulha anticomunista que ganhou adesão rapidamente, tendo em vista o contexto da Guerra Fria. Todos os que eram considerados comunistas eram tratados como subversivos. Eram alvos de investigação, calúnia e difamação por parte do senador e de seus simpatizantes. A paranoia anticomunista estava em alta e rendia bons frutos políticos e morais. Não é muito diferente daqui.

Quando Jair Bolsonaro diz em vídeo, para milhares de pessoas, que “os vermelhos” “ou vão para a fora ou para a cadeia”, ele reedita o McCartismo e o adequa à realidade brasileira. Verdade seja dita, este sentimento anticomunista existe já há quase duas décadas e já vinha sendo alimentado por uma parcela da mídia e por algumas figuras públicas que ganharam notoriedade nos últimos tempos, especialmente com a ascensão das redes sociais; foi massificado com as fake news desse período eleitoral e já ganha contornos práticos com a presença de policiais militares e agentes do TRE apoiados minimamente sobre bases questionáveis, em universidades federais em todo o país, ontem, dia 25, à pretexto de apreensão de material de propaganda política do candidato Fernando Haddad. Ganhará contornos mais sérios ainda quando (e se) o projeto da Escola Sem Partido seja aprovado e se o plano de Bolsonaro em escolher os reitores das universidades federais se concretizem – o que é visto como uma afronta à autonomia universitária, à pretexto de evitar o “aparelhamento” da esquerda nesses espaços. As universidades sempre foram um espaço de pesquisa e rigor científico, permitiu que dezenas de milhares de pessoas pudessem desenvolver conhecimento sobre a sociedade brasileira e entender o complexo país em que vivemos. Existe uma face tragicômica nisso: ao quererem expurgar uma ilusória imposição ideológica em salas de aula e espaços universitários, na verdade, querem impor uma única e específica ideologia: a do neoliberalismo, do Estado Mínimo e da redução de direitos garantidos.

A lembrança do lema “Brasil: Ame-o ou Deixe-o” passa a ser mais angustiante ainda quando o candidato diz que os “marginais vermelhos” terão que “se colocar sob a lei de todos nós”. Não abrir espaço para o contrário, não aceitar receber críticas é, por definição, ser antidemocrático – para não dizer (mas já dizendo) fascista. A paranoia anticomunista já causou um estrago enorme na sociedade brasileira que se demonstra não só na sua cisão entre valores éticos e humanos, mas também na alta taxa de fake views (distorções da realidade histórica) que as fake news criaram: direitos humanos são para bandidos, nazismo foi um movimento de esquerda, a mídia brasileira (um oligopólio mantido por sete famílias brasileiras) é comunista – assim como veículos internacionais de comunicação –, as redes sociais são comunistas, etc. O estrago está feito. O trabalho será árduo e levará décadas para que seja digerido e resolvido. O mais grave disso tudo é imputação da pecha de “comunista” para o Partido dos Trabalhadores e seus simpatizantes como se isso fosse algum crime. Não é, mesmo que o partido assim o fosse. Não realizou absolutamente nenhuma medida que poderia ser considerada comunista, mas, em contrapartida, quando propõe (ou propunha) mecanismos de regulação democrática da mídia, abertura de espaços decisórios com maior participação da sociedade, ou em assegurar os direitos à saúde, segurança e educação públicos de qualidade, são taxadas de comunistas, como se, na realidade, isso tudo não fosse já a normalidade das maiores sociais-democracias do mundo.

Independentemente do resultado das urnas neste domingo, parte do resultado já está dado. Um longo processo pedagógico precisará ser feito para que as distorções da realidade histórica sejam mitigadas e esse esforço deverá contemplar, em sua configuração, a totalidade dos setores da sociedade, dirigida, também, para essa mesma totalidade. Sem um pacto profundo pela manutenção e fortalecimento da democracia, nos restará tempos sombrios. Que eles continuem existindo apenas em nossas memórias e nos livros de história.

“A democarcia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela”. Winston Churchill


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