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Aliança pela morte do Brasil

Partido que o presidente quer criar é uma carta branca para a barbárie

Por Conrado Werneck Pimentel
22/11/19 - 11:19

A Aliança pelo Brasil, partido que o presidente da República Jair Bolsonaro quer criar já para as eleições de 2020, foi concebido por símbolos mórbidos. A convenção do partido foi agraciada com um presente de um artista plástico – uma logo feita por centenas de cápsulas de armas de diferentes calibres e tendo como o número 38 para a representação político-partidária. O que pode significar?

É compreensível que a parcela média da população sinta-se acuada e amedrontada pela violência. Quem não quer ter uma força policial na qual confia que patrulhe a rua de casa? Quem não quer ter que passar por uma situação de roubo ou furto ao pegar um ônibus para ir ao trabalho? O discurso antiviolência de Bolsonaro é, na verdade, um discurso que fomenta a violência. Não a cultura da paz, de cerne civilizatório, mas a cultura da violência, que é estruturante da sociedade brasileira desde a época do Brasil Colônia. Uma logo repleta de cápsulas de armas de diferentes calibres não pode, não é e nem deve ser um bom sinal – aviso aos incautos que, por temerem a violência, podem vir a suscitá-la mais do que já é praticada e que seletivamente recebe sua aprovação.

A latência da cultura da violência está enraizada em quase todas (se não todas) as instituições brasileiras. Do racismo velado ao explícito, da homofobia amigável ao machismo sutil, chegando aos órgãos da Justiça, dos poderes Legislativos e do Executivo – passando, é claro, pelas vias de fato das violências por motivo torpe, seja por parte da sociedade, seja por parte das forças policiais. Termos, como símbolo – mesmo que pontual – uma logo com cápsulas de armas de diferentes calibres e o calibre .38 associado a um partido político é o enaltecimento de uma cultura que deveríamos combater, não louvar. Armas, suas cápsulas e calibres que carregam a morte de dezenas de milhares de brasileiros – em sua maioria, negros, pobres e periféricos – é uma ode à barbárie que, há 2 décadas atrás, seria inimaginável.

Sociedades que usaram da violência para se promover o fizeram, obviamente, a custo de banhos de sangues de seres humanos. O apelo à barbárie remete à desumanização do outro: fazer do outro um inimigo interno ou externo imaginário a ser combatido e sua subjugação. Permitir o excludente de ilicitude para forças policiais e Forças Armadas, como bem quer o presidente da República e seu ministro da Justiça, Sérgio Moro, é um passo largo nesse caminho que já trilhamos por tempo demais. Já vivemos demais uma normalização da morte e da violência: um partido político que se preste a utilizar o calibre de uma arma de fogo para se representar no sistema político-partidário é o suprassumo da institucionalização da violência. E “institucionalização da violência” é para ser entendido como o que há de pior em governos que se tornam autoritários: a excepcionalidade como norma, tornar passível de perseguição e morte quem quer que seja determinado pela sigla e seus simpatizantes. A História já nos contou essa história diversas vezes, não devemos repeti-la. Por isso, vou repetir essa linha: a História já nos contou essa história diversas vezes, não devemos repeti-la.

O presente que o partido ganhou em sua convenção foi feito com cápsulas de armas de diferentes calibres. Compõe a logo os calibres que vitimaram Marielle Franco e Anderson Gomes; Jenifer Gomes, de 11 anos; Kauan Peixoto, de 12 anos; Kauã Rozário, de 11 anos; Kauê dos Santos, de 12 anos; Ágatha Félix, de 8 anos. Celebrar a morte e seus símbolos é um dos sintomas mais grotescos do fracasso que somos como sociedade.


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