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Estudiosos e sambistas celebram o Dia Nacional do Samba nesta quarta-feira

Especialistas falam da importância do ritmo para a formação da identidade cultural brasileira

Por Matheus Oliveira
02/12/20 - 17:36
Estudiosos e sambistas celebram o Dia Nacional do Samba nesta quarta-feira O professor Bernardo Oliveira, a historiadora Marília Barboza e o compositor Beto Fininho destacam importância do samba | Foto: Arquivo/Pessoal

“Ensaiei meu samba o ano inteiro...” Como cita o trecho da música “Retalhos de Cetim” do friburguense Benito de Paula, nesta quarta-feira, dia 2 de dezembro, é comemorado o Dia Nacional do Samba. Mas em meio à pandemia e na luta por sobrevivência, o Portal Multiplix entrevistou personalidades e estudiosos do samba para saber qual o atual cenário do gênero nesta data que celebra um traço cultural da sociedade brasileira.

O Dia Nacional do Samba foi oficializado no Rio de Janeiro em 1962 em projeto de lei sancionado pelo então governador Carlos Lacerda após o Primeiro Congresso Nacional do Samba, realizado na capital fluminense.

O compositor e sambista Beto Fininho, destacou o poder de integração do samba na sociedade brasileira.

“O samba é um gênero que foi criado no Brasil, tem uma projeção em todo território nacional e acredito que ele acaba funcionando como um elemento que tem grande poder de sociabilidade. Isso é fundamental para a sociedade brasileira. E você percebe que o sambista não sabe viver isolado. Na pandemia, olha que angústia é para o sambista ficar trancado e sem poder fazer o que mais gosta. O sambista ele só consegue viver junto das pessoas. O samba se faz e vive junto às pessoas”, relata Beto.

Ao mesmo tempo, o professor da faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFRJ), Bernardo Oliveira, destaca a identificação do ritmo com a formação cultural brasileira.

Ele destaca que a formação cultural brasileira foi um “emaranhado complexo onde o samba por uma questão histórica e relativa à própria ideia de modernidade do século vinte, acaba assumindo a dianteira de um processo que é ligado à indústria cultural nascente.”

“O samba desempenha um papel central por conta de contextos que não dizem respeito apenas à questão musical. Existem situações políticas e obviamente que isso tem toda uma relação com a apropriação do Estado Novo, com a emergência da Rádio Nacional e com a instauração de uma indústria cultural ainda incipiente, mas muito diversa, localizada na capital brasileira na época”, revela Bernardo.

Beto Fininho ainda relata que as temáticas do samba abordam temas de resistência desde o samba feito no morro quanto os produzidos atualmente.

“As temáticas tratam da resistência e do cotidiano, em especial do povo negro”, complementa.

Enquanto Beto aponta as temáticas adotadas pelo samba, Bernardo fala das características regionais e históricas do samba nos diversos estados brasileiros.

“O samba possui caraterísticas de vários estados como o que vem de Salvador-BA, a chuva arraiada e que vai se transformar no partido alto com todo o manancial rítmico e linguístico próprios. Com o fim do ciclo do café, você tem populações tanto de Minas Gerais quanto do recôncavo baiano que descem em busca de trabalho na Região Sudeste, trazendo muitas referências na bagagem. Então, você tem o samba de roda, onde se utiliza o prato e faca”, conta o professor.

“Quando a gente fala samba no Rio de Janeiro, a gente considera esse como sendo o samba urbano brasileiro, de origem carioca e estamos falando não exatamente do terreiro da Ciata, mas basicamente da célula rítmica que nasce nos arredores do botequim Apolo no Largo da Estácio, na Zona Norte do Rio. São esses compositores que vão fundar a primeira escola de samba, “Deixa Falar”. Compositores como Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (o Bide), Baiaco, Getúlio Marinho e Heitor dos Prazeres, complementa Bernardo.

Por sua vez, Beto aponta que o cenário para o samba no Brasil não é favorável pois existe um tipo de samba que é privilegiado no cenário nacional e que ainda vivemos em um período neocolonial.

“O colonialismo tem obsessão pela uniformidade, é uma obsessão dos caras. E assim, o que se espera da música mundial, é que a referência eurocêntrica e estadunidense espera da música, da música do mundo todo, é que todos cantem, todos consumam, todos se portem do jeito que eles querem que seja. Então, eu diria que o grande problema do samba hoje, já que boa parte da classe média aceitou e consome o samba enquanto produto cultural, o grande problema é que a gente pra poder ter um espaço, a gente tem que fazer do jeito que os caras querem, né? Você vê, por exemplo, programas como o The Voice Brasil em que o cara chega lá para cantar um samba e você vê os próprios jurados utilizando referências do estilo americano de cantar”, destaca.

Questionando se o samba ainda é a voz do morro, ele disse que sim, mas que o ritmo mudou muito e que a qualidade poética caiu em termos de qualidade.

Já Marília Barboza, historiadora formada em letras e doutora em ciência política, além de biógrafa de nomes como Cartola, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Pixinguinha e Carlos Cachaça, conta que, após o fim da abolição, o preconceito aos escravos que ficavam nos morros e ajudaram a popularizar o samba permaneceu.

“O samba é simplesmente uma nova leitura do canto sacro dos antigos escravos vindos do Congo e Angola. Após a abolição, aquilo mudou muito pouco, eles viraram pessoas completamente discriminadas pela sociedade. Se eles desciam dos morros ou dos locais onde estivessem aqui no Rio de Janeiro eram perseguidos pela polícia porque estavam de vadiagem, não estavam trabalhando. A forma de se manifestar então, foi ficar no alto dos morros, onde havia os terreiros de macumba, genericamente chamados de macumba, mas eram de umbanda, quimbanda, tinham várias denominações. E foi com esses instrumentos, apenas de percussão e voz que eles foram criando os primeiros sambas”, revela.

Ela conta que a música foi evoluindo e com a difusão do rádio, os cantores passaram a procurar essas músicas. Mas que apesar das músicas entrarem no cotidiano, os compositores seguiam sofrendo preconceito.

“A música é aceita, mas vai depender muito de quem a interpreta, vamos dizer, é muito fácil, não há nenhum preconceito quanto à música do Paulinho da Viola, mas com a música da Velha Guarda da Portela, ainda há. Então, a mudança que ocorreu foi a seguinte, o preconceito cultural não existe, mas existe um preconceito cultural e racial. Enquanto existir esse racismo, o sambista vai seguir sofrendo preconceito”, conclui.

Que o Dia Nacional do Samba sirva para transformar a sociedade e valorizar quem faz deste ritmo, um traço essencial da cultura brasileira. Viva o samba!

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