sem nome

Por Rachel Rabello
07/01/19 - 10:15

Esqueci meu nome num dos versos que te escrevi.

Deixei-o como quem deixa um feixe de cabelo ou uma folha de outono entre as páginas de um livro: como recordação.

Esqueci-me para que tu te recordes de mim.

Ainda que te lembres apenas quando tiveres o livro em tuas mãos, sei que meu nome cairá das páginas e pousará na memória.

Eu, no entanto, ficarei sem passado e talvez tentarei escrever-te mais versos, tentando encontrar o nome que perdi.

Eu vejo meu nome: um desenho abstrato nas paredes (vidro) do papel – mas tudo o que leio é o teu nome.

Não sei se sussurrado, se cantado ou mesmo berrado, o nome traria meu passado e calaria o presente.

Este presente, este instante, me devora berrando palavras que tento, em vão, agarrar: elas pulam como peixes fugidios.


Me chame

Que já não me lembro

Me chame

Que já esqueci

Me chame

Que já perdi todas as forças Me chame

Que sem a tua boca

Me pronunciando

Não sei o que sou,

Nem o que deveria ser.

Me chame

Pra perto

Me chame:

Deserto.

Grande deserto,

em tuas dunas

o vento sopra

meu nome

que ecoa,

agora,

neste poema.


Sem a tua voz

que chama,

o meu nome

não é mais

que um nome:

substantivo

concreto

derivado

do nada.

Origem:

devastada.


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