Precisamos abrir cadeados

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Por Hamilton Werneck
11/03/19 - 09:39

Qual é seu prazo de validade profissional? Se você não souber, o desemprego baterá à sua porta. Perguntei a um operador de som há quantos anos exercia a profissão. A resposta foi direta: dez anos. Indaguei sobre quantas mesas de som havia operado naqueles anos. Também a resposta foi pronta: um pouco mais de vinte. Este profissional adapta-se à modernidade em sua função a cada seis meses. Seu prazo de validade profissional é de seis meses. Se assim não fosse, estaria em outra parte, não ali, naquele evento, cuidando magistralmente do som. Lembrei-me de um desenho instigante de um homem com o cadeado na cabeça.

| Foto: Reprodução/Internet

Ele pensa que o seu prazo de validade é infinito, portanto, o que aprendeu nos cursos técnicos valerá pelos anos afora! Conversando com o sociólogo americano Alvin Tofler no Parlatino, em São Paulo, bem no começo deste século, ouvi dele que os médicos e engenheiros deveriam ter uma licença para o exercício da profissão, semelhante à carteira de motorista, com um prazo de validade. Tal a velocidade dos avanços em medicina e engenharia que, em pouco tempo, após a residência médica, há uma defasagem fatal para esses profissionais.

Quem lida com informação, mais ainda, porque todo o material é perecível. Ninguém quer ler o jornal de ontem, nem meu pai queria, porque as notícias do jornal já tinham sido comentadas pelo rádio e estávamos no tempo do rádio de válvula, em plena década de cinquenta do século passado.

Imaginemos, agora, com a internet e redes sociais, quando o noticiário da TV, de um telejornal para outro, já apresenta atualização das notícias!

É verdade que toda esta correria está moendo as pessoas e ninguém tem mais tempo para saborear as leituras. Este desespero diante de tantas mudanças, esta informação de que a única coisa certa é que tudo irá mudar, nos inquieta. Perdemos a tranquilidade. Se alguém quiser saber como era a vida há uns vinte anos, basta assistir a um filme daquele tempo. Não suportamos a lentidão. Queremos ação.

Como, então, não ficar neurótico nesta sociedade? Só praticando o slow motion, criando uma disposição interna de autocontrole para enfrentar as acelerações. Quanto mais convite para acelerar, mais a pessoa deverá diminuir o seu ritmo. Aproxime-se do veículo mais devagar, diminua a velocidade dos passos, tome banho com mais calma, saboreie o suco que está tomando, releia uma poesia.

Nesta sociedade de alta velocidade só há um modo de sobreviver com sanidade mental: ao lado da quebra dos cadeados que nos prendem ao passado e desenvolver uma terapia que garanta progresso e sanidade em relação ao futuro.


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