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Os desafios dos educadores no século 21

Por Ricardo Lengruber - 03 de Dezembro de 2018, 09:43

A emergência de novas tecnologias de informação está promovendo uma profunda revolução nos costumes, no mundo do trabalho e nas relações interpessoais.

Mesmo setores muito tradicionais estão sendo impactados. Em Educação, por exemplo, as transformações são tanto de natureza operacional quanto de concepção. Há muitas mudanças nos meios (na forma como se ensina e se aprende), mas também há profundas reflexões sobre inteligência, pensamento, informação e saber.

O professor está deixando de ser um mero depositário de informações; alguém que tem por ofício transmitir essas informações aos alunos. Essa tarefa já está sendo realizada, e com melhor performance inclusive, por dispositivos dotados de inteligência artificial. A busca por informações e a reunião dessas agrupadas por temas, por exemplo, são feitas com bastante eficácia pelos robôs e pelas novas plataformas de busca e de informação. E isso tudo já está na palma da mão. Nossos celulares, hoje, são mais potentes do que megacomputadores de décadas atrás e realizam tarefas múltiplas que nos demandariam muito tempo e muito esforço.

Com isso, a tarefa dos professores está sofrendo permanente e profunda transformação. Tradicionalmente, fomos educados a responder questões; para um problema dado, o nosso propósito era responder de maneira satisfatória. Fomos ensinados a responder. Como as novas tecnologias nos dão respostas em abundância e dos mais variados matizes, caberá ao professor a tarefa de perguntar. Quanto melhores forem as perguntas melhores serão os resultados. E mais inovadores poderão ser os saberes decorrentes dessas perguntas.

A mudança é paradigmática: aprender a perguntar em vez de apenas responder. Aos professores, caberá a missão de inspirar a construção de saberes por meio do processamento criativo e crítico das informações e dos dados. E, além disso, o desafio de instigar e promover saberes que revolucionem o estado atual das coisas.

​Por isso, vale a reflexão sobre o fato de que o conhecimento é diferente de informação. Informação é dado. Conhecimento é processo. O conhecimento, seguramente, é o que há com mais valor na sociedade contemporânea. Conhecimento que processa as informações. Conhecimento que analisa os dados e reflete criticamente a respeito deles.

Por isso, todo saber, todo conhecimento é plural também. Há muitas perspectivas possíveis na ponderação a respeito dos dados que temos. Até porque, em geral, sobre um tema, não temos todos os dados. Há sempre filtros, ângulos e matizes distintos em tudo e a respeito de tudo.

Daí, por exemplo, a urgência de abandonar as redes sociais como única fonte de informação. Primeiro, porque nelas ficamos na passividade de quem apenas recebe. Segundo, porque não há meios muito consistentes de apuração. E terceiro, porque o algoritmo que as rege mapeia muito mais rapidamente o que a gente quer consumir em termos de informação do que nós mesmos somos capazes de ter consciência. O que se recebe pelas comunidades virtuais, em geral, não é conhecimento. É mera informação. E, não raro, informação enviesada, parcial e intencionada.

Às vezes, muita informação é sinônimo de ignorância. Mais que isso: muita informação (como há em abundância na rede virtual) é elemento paralisador do pensamento. Por isso, a tarefa educacional e professoral hoje é bem mais ampla e bem mais profunda também. Além da tarefa cotidiana de garimpar dados e refletir sobre eles, caberá aos educadores o desafio de fazer perguntas cada vez mais elaboradas e inovadoras sobre o saber em todas as suas dimensões (ética, epistemológica e funcional).

O saber tem deixado, dia a dia, de ser objeto e tem assumido o papel de agente transformador da sociedade. Quanto melhores forem as perguntas, mais inovadores serão os saberes delas decorrentes. Quanto mais éticos forem os pressupostos desses questionamentos, mais humanizadores serão as novas abordagens, tecnologias e saberes.

E, em algum sentido, a própria escola será questionada: se se mantiver respondendo perguntas e apenas resolvendo problemas acabará por desaparecer frente aos novos e ainda pouco explorados caminhos da inteligência artificial. Precisará se arriscar na aventura dos mundos e universos novos que se forjam nas perguntas, na dúvida e na coragem de desbravar o desconhecido e o que ainda não existe.

Novamente: a mudança é paradigmática; aprender a perguntar em vez de apenas responder.


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