O que pode levar os jovens a atitudes violentas?

Posicionamentos radicais que proliferam nas redes sociais podem influenciar impulsos destrutivos

Por Sara Schuabb
15/03/19 - 16:54
O que pode levar os jovens a atitudes violentas? Vários fatores podem desencadear, em um jovem, uma conduta destrutiva | Foto: Banco de Imagem

O massacre que aconteceu na última quarta-feira, 13 de março, na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano – SP, em que dois jovens ex-alunos entraram atirando, matando oito estudantes e funcionário, antes de se suicidarem, nos leva a questionar o que pode influenciar tamanha violência. Os atiradores pareciam ter afinidades com as armas. Antes do crime, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, havia publicado várias fotos nas redes sociais armado, e Luiz Henrique de Castro, em sua foto de perfil no Facebook, vestia-se como um atirador de elite.

A violência ocorrida em Suzano nos remete a outros massacres semelhantes, como o que aconteceu em abril de 2011 em uma escola municipal de Realengo, no Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola armado com dois revólveres e disparou contra os alunos presentes, matando doze e deixando mais de treze feridos. O jovem também foi interceptado por policiais e cometeu suicídio. E, em 1999, na Columbine High School, nos Estados Unidos, os assassinos Eric Harris e Dylan Klebold, também jovens, mataram 12 alunos, um professor e feriram 24 pessoas, cometendo suicídio depois. Os diários pessoais documentam que eles planejavam um ataque semelhante a de outros violentos que ocorreram no país na década de 1990.

A socióloga Verônica Barros acredita que esse ato de violência está relacionado ao fato de sermos colonizados culturalmente pelos norte-americanos. “Esse tipo de crime é uma cópia da cultura americana, que ocorre nos Estados Unidos. Isso não é comum no Brasil. Estamos vivendo uma expansão cultural nociva. Infelizmente, copiamos tudo de lá, só não copiamos o que é bom”, afirma.

Para o psicólogo Paulo Lander, vários fatores podem desencadear em um jovem uma conduta desse tipo, porém cada caso pode ter uma motivação específica. E, os casos que temos conhecimento através da mídia apontam algumas características em comum.

“Vejo hoje alguns posicionamentos radicais que proliferam nas redes sociais como deflagrador de impulsos destrutivos, mas de uma forma que atende 'filosofias' das mais bizarras. Creio ser difícil reverter essa situação já que hoje ninguém vive sem a internet. Outro fator que percebo como comum é o distanciamento afetivo entre as gerações. Não são apenas os filhos que estão escravizados pelas redes sociais. Os pais também estão. Logo, a receitinha mágica dos pais serem amigos de seus filhos é cada vez mais difícil. Hoje, os modelos somem constantemente da vida da criança, e, às vezes é um determinado grupo ou pensamento da web que faz esse papel”, afirma.

Quanto à atuação dos pais na educação de filhos adolescentes e jovens que tenham comportamentos distantes e incompreendidos, o psicólogo acha importante evitar situações repressoras e de conflito e sugere como saída tentar entender, se aproximar e se interessar, com naturalidade, pela vida do filho, conhecendo suas predileções. No entanto, se aproximar repentinamente pode parecer invasivo e o adolescente poderá se sentir vigiado, monitorado, e se afastar ainda mais.

“Mas essa fórmula só teria resultado em famílias com um mínimo de estrutura, algo que vem diminuindo cada vez mais. Muitas vezes são os pais que estão desagregados e ausentes - por vezes também bitolados em outras questões potencialmente alienantes, como as redes sociais. Nesses casos, a desestrutura do jovem é sintoma de um problema que pertence a outrem.”

A psicopedagoga Cassiana Tardivo diz que atualmente é muito comum os jovens se distanciarem do meio familiar e ficarem trancados em seus quartos e mundos, com seus fones de ouvido, construindo seus saberes sem que os pais tenham qualquer conhecimento das influências que recebem. E esse comportamento pode atrapalhar a formação de sua conduta.

“Convido os pais a tirarem seus filhos do quarto, do tablet, do celular, do computador, do fone de ouvido, a comprarem jogos de mesa, tabuleiros e terem os filhos na sala, ao seu lado por no mínimo dois dias na sua semana à noite, além do sábado e domingo, a se divertirem com eles. Escutem suas vozes, falas e pensamentos para que se sintam pertencentes ao lar e não precisem se aventurar em brincadeiras malucas para se sentirem alguém ou terem um pouco de adrenalina que antes tínhamos com as brincadeiras no quintal.”