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O museu que não existe mais

A memória, já esquecida, foi incendiada⁢

Por Conrado Werneck Pimentel - 04 de Setembro de 2018, 17:37

"Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado."

Emília Viotti da Costa

Incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruiu acervo de 20 milhões de itensIncêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruiu acervo de 20 milhões de itens. | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O descaso tem muitas facetas e em sua maioria, uma faceta cruel: relega à sorte, ao acaso, um fim triste – a perda irreparável de uma vida ou, no caso, de um patrimônio histórico da humanidade. Tudo aquilo que é irreparável, não é passível de se re-existir, portanto, eternamente perdido. Assim foi com 90% do acervo do Museu Nacional que ardeu em chamas no domingo à noite. Parte da imprensa agora percorre todas as entranhas institucionais para descobrir quem foi o culpado pela omissão que gerou a tragédia; uma pequena parcela da população tenta colocar a culpa em partidos políticos e, por sua vez, partidos políticos tentam, ao seu jeito e maneira, capitalizar votos sobre as ruínas e o pó do Museu.

Estão todos enganados, se enganando ou querendo enganar a outros.

O que levou à tragédia deste domingo não é um problema propriamente institucional, nem pessoal, nem técnico. É explicitamente político. É a forma como o Brasil lida com a sua história e a sua memória. Museus relegados ao esquecimento, como é comum em um país onde não se valoriza a arte, a cultura e a sua história. É a nação que foi fundada sobre um grande cemitério indígena, que escravizou negros, que sustentou períodos sombrios de ditadura militar e censura. Uma nação que não olha para a sua história – uma nação que, enquanto pode, encobre sua história, como a construção do [pretensioso] Museu do Amanhã no mais movimentado porto de escravos do país.

Uma nação que não valoriza a pesquisa, a ciência e a tecnologia dos polos de educação superior destina, ao seu futuro, o total desapreço pelo passado e pela vida de tantas pessoas que doam grande parte do seu tempo na geração do conhecimento científico e na manutenção da memória. A questão, portanto, reside no franco histórico de esquecimento da nossa memória. Um país que continua com seus olhos vidrados para além-mar do Oceano Atlântico, que fica de costas para sua própria gente e seu processo de formação nacional. É compreensível, tendo em vista que todo o massacre pelo qual esse país foi fundado é, de fato, vergonhoso, ainda mais quando se observa que o grande baronato e os antigos coronelistas ainda sobrevivem na estrutura política do país.

As ruínas do Museu Nacional, hoje, representam a forma como a nação lida com sua própria história: romanceada, quando não apagada; idealista, quando não contorcida. Assim seguimos quando colocamos no mesmo balaio uma diversidade enorme de etnias no termo generalizante “indígena”, assim seguimos quando as revoltas populares da era do Império eram tratadas a ferro e fogo – inclusive, literalmente, no caso generalizado da escravidão desse país e a transição para o trabalho livre, que foi feito sem nenhum compromisso de inserção social dessa grande parcela da população. Assim seguimos quando não olhamos o recente período da Ditadura Militar, sem passar a história a limpo. Assim seguimos esquecendo nossa memória, tratando de soslaio toda a importância que um museu abriga para um país e para a humanidade: essa importância não se resume ao seu caráter arquitetônico – a reconstrução de telhados e paredes é plenamente possível de ser realizada. Mas o trabalho de décadas de centenas de pessoas que ajudaram a contabilizar o acervo de 20 milhões de peças e toda sua importância da história da humanidade e do país jamais poderão ser recompostas. Infelizmente, as ruínas do Museu Nacional são um retrato fidedigno dos tempos de barbárie que estão instalados e sendo insuflados no país.


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