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O mapa da fome e o estômago da alma

Por Rachel Rabello - 01 de Outubro de 2018, 09:25
O mapa da fome e o estômago da alma

Estamos a uma semana das eleições e eu não sei escrever sobre política, não domino a história política do meu país, não sou autoridade no assunto. Mas sei ouvir. Penso que a vida é muito complexa para ser dividida em maniqueísmos, bem e mal, direita e esquerda, deuses e demônios. Cada vez mais vou enxergando as sutilezas, as áreas acinzentadas. Mas penso que no fim das contas tudo se resume à fome, fome de alma, fome de carne, é tudo fome. Não sejamos levianos e isso deverá bastar. O que mais podemos fazer?

Transcrevo aqui um poema de Manoel de Barros que me fez pensar sobre tudo isso:

ANTONINHA ME LEVA

Outro caso é o de Antoninha-me-leva:

Mora num rancho no meio do mato e à noite recebe os

vaqueiros tem vez que de três e até quatro comitivas

Ela sozinha!

Um dia a preta Bonifácia quis ajudá-la e morreu.

Foi enterrada no terreiro com o seu casaco de flores. Nessa noite Antoninha folgou.

Há muitas maneiras de viver mas essa de Antoninha era de morte!

Não é sectarismo, titio.

Também se é comido pelas traças, como os vestidos.

A fome não é invenção de comunistas, titio.

Experimente receber três e até quatro comitivas de boiadeiros por dia!

Manoel de Barros

Há muitas maneiras de viver, mas muitos vivem à maneira de morte, como Antoninha. E não exijamos deles nada mais do que a sobrevivência. Experimente você receber três e até quatro comitivas de boiadeiros por dia. Experimente você ter seu filho morto em troca de tiros na favela. Experimente você ser preso por ser preto e favelado. Experimente você ter uma filha que lutou para acabar com as injustiças e desigualdades desse mundo e foi assassinada na frente do seu trabalho. Experimente, troque de lugar por um segundo com essas pessoas. Me diga se elas são burras porque não sabem de história ou se não sabem de história porque não foram à escola (porque precisavam trabalhar para comer ou porque precisavam ir à escola só para comer). Me diga se eles são pobres porque têm muitos filhos ou se têm muitos filhos porque são pobres. Me diga você se conseguiria pensar em direitos humanos diante do corpo dilacerado da sua filha, que foi estuprada no ponto de ônibus meia noite de mini saia, voltando do baile funk. Que foi estuprada de manhã, recatada, a caminho do trabalho (ou da faculdade ou do supermercado... ou... ou... ou...deveria fazer diferença de onde ela vinha, para onde ia e o que vestia?)

Pra mim, é fácil defender os direitos humanos. Não vivo como Antoninha, à maneira de morte... Não, não sejamos levianos. Não julguemos o outro por viver o invivível. Já disse Guimarães Rosa: O diabo não existe, o que existe é homem humano. Travessia.


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