O encanto da pisada

Por Rachel Rabello - 06 de Agosto de 2018, 13:41

Escrevi muito sobre partir, mas quase nada sobre chegar. Minha tia avó Naide Rosado me disse, a propósito de minha chegada em Teresina: “Não é o lugar que nos fascina, nós é que fascinamos o lugar. Quando pisamos num canto, nossa alma pisa também. É o encanto da pisada”. Fiquei com essas palavras, degustando seus sentidos.

Segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o verbo fascinar tem como significados: “dominar com o olhar” e “exercer domínio por meio de encantamento, de feitiço; enfeitiçar”. A palavra domínio faz parte dos dois significados, o que sugere uma postura ativa daquele ou daquilo que fascina. Pensando nas palavras de Naide Rosado, refleti sobre o simbolismo de tudo o que existe. Penso que nós, seres humanos, é que atribuímos significados e simbolismos às coisas e não o contrário. No fundo, era isso o que ela me dizia. “Não é o lugar que nos fascina, nós é que fascinamos o lugar”. O lugar em si não exerce domínio, seja por olhar ou por encantamento. O olhar simbólico é humano, o encantamento ou feitiço também – o Homem em comunhão com o caráter divino da natureza. Então o que ela me dizia era que eu não chegasse a essa terra com uma postura passiva, que eu não deixasse que a terra determinasse minha alegria ou tristeza. Tudo dependeria de mim.

Mas um lugar não é neutro, desprovido de simbolismo. Em todo lugar há pessoas e elas já pousaram sobre ele os véus do olhar. Como então não se deixar influenciar pelo olhar dos nativos? Penso que a questão não é se proteger dos véus, mas conseguir levantá-los. E o estrangeiro tem a vantagem de não ter crescido com esses véus colados aos olhos, de modo que pode optar por olhar ora por trás, ora através deles. Estrangeira serei sempre, como todos que não vivem em sua terra natal. Aceito minha condição e me regalo dela.

Por isso, quando pisei em Teresina, segui as palavras de Naide Rosado e imbuí meus pés de encantamento: o encanto da pisada.


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