Mosaico

Por Rachel Rabello - 14 de Junho de 2018, 11:49

Eis que tenho em minhas mãos a biografia de meu pai – “Raphael Rabello: o violão em erupção” –, carinhosamente enviada pelo autor Lucas Nobile.

Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos de idade. Minhas lembranças são poucas, memórias de uma menina que brincava de princesa e que, com a orfandade, desacostumou na fantasia.

Durante toda a minha infância e adolescência, tentei conhecer meu pai. Juntava as histórias contadas por quem conviveu com ele às memórias que eu tinha, às gravações que dele ouvia, e tentava construir uma pessoa. Era um trabalho de colagem e o que eu alcançava não era mais do que um mosaico.

Já adulta, entendi que nunca conheceria meu pai. Pois o mosaico que eu construía era formado por versões de Raphael. O Raphael filho, o Raphael irmão, o Raphael marido, o Raphael pai de Diana (minha irmã), o Raphael amigo, o Raphael gênio do violão. Entendi que eu jamais conheceria o Raphael pai de Rachel, jamais poderia construir a minha versão de Raphael a partir de um contato imediato com ele, a partir do eu que ele apresentaria para mim. Mas isso não me impediu de construir a minha versão, ainda que ela seja um mosaico, ainda que ela seja formada a partir de uma ausência.

Essa biografia é mais uma versão de Raphael, mas tem a vantagem de não ser fragmentada como as outras. É uma visão global da sua trajetória profissional. O livro ganha sua força porque conseguimos observar do alto essa trajetória, como se estivéssemos dentro de um avião. As histórias pessoais são narradas para ilustrar e ampliar o entendimento desse percurso profissional, sem tom novelesco, sem abusos sensacionalistas. A relevância dessa biografia é incontestável, principalmente pela documentação e organização da obra do meu pai.

Embora o enfoque não seja pessoal, eu, como filha, senti falta de aparecer no livro, com meu pai, em uma foto ou outra, já que há fotos da família que o gerou, mas nenhuma da família que ele construiu. Mas isso é minha carência de filha, de maneira nenhuma invalida a grandeza do livro. Também discordei de algumas análises dos discos, pois, na minha opinião, todos são impecáveis, mas tenho consciência de que, como filha, minha opinião é suspeita, é impossível ser imparcial.

Gostei muito do livro, me emocionei em diversos momentos, tive acesso a histórias, informações e gravações que desconhecia. Por isso, hoje, meu mosaico está um pouco mais completo.


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