Um feriado para chamar de nosso

Por Ricardo Lengruber
19/11/18 - 09:12

Feriados são datas especiais. Pelo menos deveriam ser. Aqueles momentos que uma nação para com o objetivo de celebrar um fato, um feito, um herói ou uma conquista. 

Essa seria a lógica do 15 de novembro ou do 7 de setembro. Seria, mas não é. E não é porque o país não teve realmente uma luta por independência e a república foi fruto de um golpe militar. A sociedade real nunca participou dessas “conquistas”. No entanto, as datas estão aí e as festas são celebradas. 

Mais curioso, e quase hipócrita na verdade, é a data de 20 de novembro. Nasceu pra celebrar Zumbi e ser o dia da Consciência Negra, mas num país que não teve de fato uma abolição real da escravidão. Numa nação que ainda não se reconhece como escravocrata (na medida em que suas relações de trabalho são análogas às da escravidão, especialmente quando se referem à população negra, como racista (porque por aqui ser preto é sinônimo de problema) e como reacionária (porque no Brasil luta social é tida como terrorismo e militantes são vistos como estorvo). 

É preciso refletir sobre o que faz ocorrer essas disparidades no país. Porque celebrar o que efetivamente não se tem como conquista social?

Primeiro tem a ver com hipocrisia mesmo. Há uma falsa ideia permanente de que a sociedade brasileira é um mar de cordialidade e que as mazelas socioeconômicas das quais padecemos se devem mais a à corrupção de alguns do que às estruturas opressoras do estado. Por isso, hipocritamente, desde que o país se entende por gente, cultivamos a sanha persecutória pelos corruptos. E por isso taxamos o próprio Zumbi, por exemplo, de senhor de escravos. Por aqui, nos especializamos em culpar as vítimas por seus sofrimentos. E, não raro, as vítimas são, elas mesmas, porta-vozes de seus algozes. Por isso, responsabilizamos a menina que anda de saia e é estuprada ou o negro que eventualmente se comporta de forma preconceituosa pelo racismo sistêmico da sociedade. 

Depois, porque é muito eficiente em termos de controle social que as celebrações elevem a autoestima da população sem necessariamente terem em sua base o correspondente histórico para tal. Assim, no 7 de setembro, temos uma multidão cantado o hino nacional e militares pagos com dinheiro público desfilando em ruas públicas e prestando continência a políticos que deveriam se ocupar da coisa pública e muito pouca gente refletindo e protestando sobre a dependência econômica e cultural que temos para com os países do centro, quando poderíamos perfeitamente estar entre as nações mais ricas, prósperas e justas do planeta. E não estamos exatamente por conta de setores políticos e militares que nunca se ocuparam dessa agenda emancipadora. 

Banalizar nossos preconceitos ajuda a mantê-los vivos e ativos. Quanto mais naturalizamos o racismo, menos nos incomodamos e, por consequência, menos nos mobilizamos para o enfrentamento dessa mazela. 

No caso do 20 de novembro, há, porém, resistências e preconceitos. Gente que não reclama de feriados clássicos o faz com relação ao dia de Zumbi, sob a alegação, por exemplo, de que a economia do país fica prejudicada. Isso revela, ao mesmo tempo, a reação preconceituosa de setores importantes da sociedade e, por outro lado, a força de um feriado cuja história, essa sim, está calcada na força de emancipação dos movimentos abolicionistas. Movimentos aliás sempre sufocados pelo Estado. 

Celebrar o 20 de novembro é uma espécie de tentativa de resgatar (ou construir mesmo) a identidade de um país que insiste em negligenciar suas chagas. Honestamente, essa deveria ser a data nacional por excelência. Uma forma de reconhecer nossa história e reescrevê-la para as próximas gerações. 

Enquanto o Brasil não se enxergar com honestidade não haverá chances de transformação concreta. Continuar afirmando que são a política e a corrupção os principais problemas do país é o engodo que (apesar de alguma correção) esconde o verdadeiro câncer que corrói desde as origens a formação da sociedade brasileira. Por aqui, a pobreza, a desigualdade e a discriminação é que são endêmicas. E todo o sistema político e jurídico serve, por mais triste que isso seja, apenas para corroborar e manter esse estado de coisas. 

Ficar buscando contradições na figura de Zumbi é desonesto e é um desserviço ao Brasil. Afinal, além de não fazermos o mesmo com figuras da independência e da república (por exemplo), temos por heróis personagens cujas histórias são, no mínimo, controvertidas. 

Ou o país se assume racista, enfrenta as consequências sociais disso e decide adotar políticas públicas de superação ou permaneceremos patinando nesse mar de sofrimentos. Por isso, Zumbi tem a força da resistência e a potência da esperança. E por isso mesmo deveria estar no rol dos personagens formadores dessa nação. Insistir nas figuras e datas oficiais tradicionais que não têm qualquer conexão com a população só reforça o engodo da nação independente, republicana, inclusiva e livre que nunca fomos.



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