Certidão de óbito

Por Rachel Rabello
24/04/19 - 11:32

Menos de um mês após a morte do músico Evaldo Santos, que morreu com 80 tiros por um “engano” do Exército, leio nos jornais sobre um evento literário em que foram convidados somente poetas brancos. No mesmo dia, leio também sobre uma entrevista ao vivo de Conceição Evaristo para o projeto Escrevendo o Futuro. A autora é homenageada na Olimpíada da Língua Portuguesa 2019 e conversou hoje, 23 de abril, dia de São Jorge, com diretores de escolas públicas e profissionais de secretarias de Educação participantes da olimpíada. Enquanto o evento literário da alta sociedade carioca ignora as questões raciais e sociais de nosso país, Evaristo segue seu caminho e sua missão.

Em resposta à indignação pública, a curadoria do evento literário declarou que, embora as reivindicações de representatividade sejam legítimas em eventos de grande alcance ou em instâncias públicas, tais queixas por direito não são cabíveis em um reduzido “encontro de poetas”. De novo, como no caso da candidatura de Evaristo a Academia Brasileira de Letras, o meio literário se apresenta, sem constrangimento algum, como um reduzido encontro de amigos (leia-se, escritores brancos) e, ainda, em sua maioria, homens (neste caso específico, são 11 homens e sete mulheres – todos brancos).

O que esse reduzido ciclo de amigos parece não compreender é que, como diziam as avós, “costume de casa vai à praça”. Se o “mau hábito” (termo que aqui uso como um eufemismo) da exclusão não for eliminado, se continuarem não tomando para si a questão da representatividade, ela nunca se tornará natural, e “enganos” como o cometido pelo Exército no dia 7 de abril continuarão a acontecer. A consequência da não representatividade é a certidão de óbito de milhares de negros.

Eu, como poeta branca, peço licença e tomo emprestada a voz de Evaristo: transcrevo um poema seu que, a meu ver, diz tudo o que eu jamais poderia dizer (e nem deveria, se ela própria pode fazê-lo).

Certidão de óbito

Os ossos de nossos antepassados/ colhem as nossas perenes lágrimas/ pelos mortos de hoje.// Os olhos de nossos antepassados,/ negras estrelas tingidas de sangue,/ elevam-se das profundezas do tempo/ cuidando de nossa dolorida memória. // A terra está coberta de valas/ e a qualquer descuido da vida/ a morte é certa. / A bala não erra o alvo, no escuro/ um corpo negro bambeia e dança./ A certidão de óbito, os antigos sabem,/ veio lavrada desde os negreiros.

Conceição Evaristo


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