A filosofia é um perigo

Por Ricardo Lengruber
29/04/19 - 09:20

A filosofia é uma espécie de saber sobre si mesmo. Uma reflexão a respeito do conhecimento humano e todos os seus desdobramentos (éticos, técnicos, estéticos, religiosos, etc).

Da mesma forma que toda ciência tem um objeto definido de estudo, a filosofia tem como seu objeto o próprio saber, a própria reflexão, o próprio conhecimento.

A filosofia nasceu já com a suspeita de que os saberes são sempre intencionados e ideologicamente orientados. Por isso, ela se comporta desde sempre como crítica sobre os meandros pelos quais os saberes se constroem.

Qualquer saber - dos mais práticos e utilitários aos mais teóricos e reflexivos - traz consigo alguma dose de filosofia. Carrega em seu bojo uma reflexão sobre si mesmo.

Por isso, sempre, ao longo de toda a história do Ocidente, a filosofia sofreu perseguições. O caso de Sócrates é uma espécie de sacramento dessa sanha vivida por quem deseja revolver a terra batida dos saberes estacionados e se esforça por desvendar o que há por trás e na base das ideias, dos discursos e das práticas.

Sócrates foi assassinado pelo estado, pela sociedade e pelos seus pares, acusado de “desviar” os jovens. Toda vez que o sistema se sente ameaçado são os pensadores que acabam por ocupar o primeiro lugar na fila dos perseguidos. É sempre sob a mesma acusação: desviar jovens.

É claro que existem ameaças à juventude. Mas jamais é a filosofia a protagonista disso. É o desemprego, a violência, o preconceito e a resistência a mudanças as principais ameaças.

Não nos enganemos: sem filosofia, o desemprego aumentará. Afinal quem será capaz de aprender a aprender permanentemente (exigência desse mercado altamente tecnológico e inovador) sem cultivar os exercícios epistemológicos que só ela é capaz de fazer?

Sem filosofia, a violência aumentará. Porque sem reflexão sobre as raízes dos conflitos sociais, jamais haverá alternativa verdadeiramente eficaz no trato dessas questões.

Sem filosofia, a tendência da sociedade é se tornar mais e mais preconceituosa, tacanha e chafurdada em estereótipos, perfumarias e cortinas de fumaça. Só o exercício da reflexão sobre ética é capaz de nos desalojar ao ponto de promover mudança.

Sem filosofia não há chance de uma sociedade avançar em qualquer um de seus aspectos: economia, saúde, segurança, tecnologia, educação e arte.

Governos autoritários tendem a silenciar a filosofia porque sabem de sua potência. Governos sem visão de futuro tendem a desconsiderar a filosofia porque não sabem de sua importância.

Por isso, a filosofia é um perigo. Suas intenções passam pela transformação profunda do que há de mais potente na humanidade: o conhecimento. E como há de gente que odeia a mudança (porque está em lugares privilegiados), a filosofia sempre será uma ameaça.

No fundo, a perseguição à filosofia é um elogio e o reconhecimento de seu poder.


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