Brasil Interrompido

O amadorismo de um novo governo não pode ser subestimado

Por Conrado Werneck Pimentel - 24 de Dezembro de 2018, 09:22

O projeto de um país mais humanizado, ao que tudo indica, irá derreter. Aparentemente, o governo de Bolsonaro será feito à base do improviso, de acordo (ou não) com a mobilização da reação pública. Quantas vezes já, nesse período de transição, o futuro presidente “desautorizou” a fala dos filhos e até mesmo do seu vice? Mas não podemos nos deixar enganar por tantas idas e vindas durante esse período.

Serão dois os motes do governo de Bolsonaro: o moralismo e o lobby.

O primeiro está concentrado em emperrar toda e qualquer forma de políticas afirmativas – seja para mulheres, gays, negros e indígenas – personalizado nas figuras de seus ministros. O futuro ministro da Cidadania, Osmar Prado, pretende restringir o uso de bebidas alcoolicas no país (impossível não lembrar de Jânio Quadros proibindo a rinha de galos e o uso de biquinis). Damares Alves, futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, com um discurso fundamentalista, é contra a pauta do aborto – ao passo em que uma mulher morre a cada dois dias por aborto inseguro; Ernersto Araújo, que ocupará o Ministério das Relações Exteriores, pretende sair do pacto global de migração da ONU – em um momento em que os números apontam um aumento de 50%.

São fatos que o governo de Bolsonaro parece querer ignorar – estes e tantos outros. Contra uma suposta ideologia que teria dominado o país no governo do PT, o PSL adota outra, enfaticamente, que tem como via de regra simplesmente negar a realidade e estudos que apontam quais seriam os melhores caminhos a serem seguidos para minimizar as crueldades de um país extremamente desigual. Alinhar-se aos Estados Unidos de Donald Trump com um discurso antiglobalista – o que seria, basicamente, negar a existência da multiculturalidade e dos avanços que a própria tecnologia da comunicação trás – é colocar o país em um infindável atraso, ou, no mínimo, à estagnação em meio à história da humanidade. Esse alinhamento significa, em suma, um desejo de isolamento e de rompimento com práticas democráticas e diplomáticas – como no recente caso da Venezuela e o aumento de tensão na relação entre os dois países.

O segundo mote pode ser visto na atuação da futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Presidente da Frente Parlamentar da agropecuária que tem, entre seus diversos interesses, a redução de áreas de proteção ambiental e a flexibilização para o uso de agrotóxicos (além da eufêmica “modernização” das leis trabalhistas rurais) – indo contra diversos atestados mundiais elementares sobre a necessidade de se preservar áreas florestais e de redução do uso de agrotóxicos. Quem, em sã consciência, seria capaz de ser a favor da promoção do desmatamento e do aumento do uso de agrotóxicos? Na última quarta-feira, indicado para o Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, por fraude em elaboração do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental, junto à empresas de mineração ligadas a Fiesp.
A atuação de parlamentares e ministros em nome de empresas ou conglomerados privados, na defesa de seus interesses, não difere muito do que, em suma, sempre foi, a base de poder e de influência das pessoas públicas no país. A atuação do lobby é contrário ao que temos (ou que deveríamos ter) como ideal de res publica, de demokratia e de sua oikonomia – da coisa do povo, do poder do povo, da nossa administração doméstica. Tudo indica que todos esses significados não só são subvertidos no atual funcionamento da máquina pública e o poder que os sustenta, como, talvez, literalmente, tenham sido suspensos da concepção da grande maioria de nossos parlamentares e de alguns de nossos futuros ministros.

O grande consórcio de interesses empresariais e de oligopólios, centrados nestas figuras, é simplesmente o mais do mesmo do que vimos até aqui: mais do que uma ligação estreita entre o que é o público e o que é o privado – uma mistura, uma confusão, entre estas duas esferas. E que, infelizmente, ao cabo e ao rabo, reflete parte da confusão do eleitorado brasileiro nestas eleições. O problema, não necessariamente, era o Partido dos Trabalhadores – e isto não é uma defesa irrestrita do partido e de seus governos – mas sim a composição de nossos parlamentos e sua cultura política de atuar em consonância com interesses que não sejam ligados objetivamente à melhora da qualidade de vida da população. O próprio funcionamento do nosso sistema político permite que essas ações sejam tomadas – felizmente, não sem oposição a elas, como há décadas vem sido realizadas por movimentos sociais e diversas organizações sociais.

Não é à toa que o governo de Bolsonaro terá mais de 1/3 de militares-ministros. O maior número desde a redemocratização. A instituição é a que mais tem confiança da população – você pode ver o estudo completo aqui (à título de curiosidade, partidos, congresso e a Presidência são as menos confiáveis, de acordo com a pesquisa). E é nisso – e só nisso – que parece que o governo se apoiará para manter uma moralização da sociedade e para legitimar a manutenção do lobby.


A próxima coluna será publicada na primeira quinzena de janeiro, portanto, o colunista deixa aqui os votos de boas festas de fim de ano aos leitores e à equipe da Multiplix.


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