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A obscuridade do desejo

Por Rachel Rabello - 27 de Novembro de 2018, 09:25

O livro Por qué volvías cada verano (Madreselva, 2018), da escritora argentina Belén López Peiró, é o relato pessoal de uma mulher que foi abusada sexualmente na adolescência. A relação abusiva começou quando a autora tinha 13 anos e foi passar as férias de verão no sítio de sua tia, irmã de sua mãe, perdurando até os seus 16 anos, período em que passou os verões no mesmo sítio. Quando tomou coragem de expor seu agressor (o marido de sua tia), uma das perguntas que mais escutou é a que dá título ao livro: por que voltava todo verão? A notícia do lançamento desse livro me trouxe algumas reflexões, que compartilho aqui.

A autora afirma que sua escrita foi a forma que encontrou de obter um sentimento de justiça, já que o abusador continua em liberdade mesmo após a denúncia. É a escrita como potência transformadora de si e do mundo: "Me deu muita ternura uma mulher que me escreveu da província argentina de Chaco. Ela disse que era avó e pela primeira vez na vida tinha conseguido falar sobre uma situação que havia vivido. Foi a primeira vez que conseguiu encontrar palavras para falar, porque havia lido essas palavras em um livro", conta Peiró. Aquilo que não é nomeado permanece obscuro. É o que se passou com essa mulher, que nunca tinha conseguido falar sobre sua experiência até encontrar as palavras em um livro. Nomeá-la parece ter sido um alívio e uma libertação.

O que muitos não conseguem entender é como uma mulher não consegue saber que foi abusada sexualmente ou forçada a ter relações sexuais – o que a impede de nomear no ato, no instante presente do acontecimento. E, por não compreenderem, julgam a mulher que decide expor seu agressor tempos depois do ocorrido, questionando suas intenções e seu caráter. Há muitas questões aí. Em primeiro lugar, é preciso diferenciar os tipos de abusos. Há casos em que a violência é óbvia: realidade aguda e cortante. Mas há também aquelas ocasiões em que o abuso se dá de maneira sofisticada, com a máscara do amor. E é esse disfarce que obscurece os sentimentos e as emudece. Parece-me que, mesmo hoje, que tanto se tem falado sobre feminismo, permanece difícil, para a mulher, discernir se uma relação sexual foi consensual ou não. Nosso desejo é volúvel: um gesto muito brusco ou muito suave e poderá se desfazer. No entanto, quantas vezes a vontade se desfaz e o parceiro insiste, quantas vezes a mulher cede por pensar que é tarde demais para mudar de ideia. O imaginário que forma a nossa sexualidade é o desenho de uma relação de poder: o homem, macho alfa, dominador – a mulher, a presa, dominada. Esses são os arquétipos que formam nosso desejo e que parecem apagar os limites entre a dor e o prazer, entre o não e o sim. Adeptos do sadomasoquismo, por exemplo, afirmam que o corpo se defende da dor com prazer, que, em resposta, viria com mais intensidade. As raízes do desejo são complexas, não podem ser definidas em termos exatos. Diante disso, penso que é difícil nomear o que sentimos nos segundos que precedem o ato sexual: as dinâmicas são múltiplas e os desejos, ambíguos.

Talvez sejam esses os motivos pelos quais muitas mulheres não conseguem nomear o que viveram no momento exato em que viveram e a consciência dessa experiência, seu nome, só possa vir muito depois.

Por outro lado, penso que, ao mesmo tempo em que aquilo que não é nomeado permanece obscuro, nomear pode também traduzir-se em obscurecimento. Quando outra pessoa nomeia o que sentimos ou vivemos, ou quando reconhecemos o que vivemos em palavras de um livro, corremos o risco de reduzir a experiência a um nome que nos transfere para a posição de vítima. Isso é libertador quando há sentimento de culpa, quando nos culpamos por algo que de fato não somos culpadas, mas também pode lançar sobre uma experiência sexual complexa a sombra de um trauma e confinar a ambiguidade de nosso desejo em categorias maniqueístas.

Minha intenção com esse texto não foi a de trazer respostas. Não tenho certezas. De todo modo, acho que a leitura do livro de Belén Lopéz Perón é mais do que interessante, é necessária. Espero que não tarde a ser lançado no Brasil. E encerro esse texto-reflexão com versos de Fernando Pessoa: “Todos me possam sentir, mas ninguém me definir”.

Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2018/11/25/a-jovem-escritora-que-transformou-em-livro-o-abuso-sexual-que-sofreu-de-tio-na-infancia.ghtml


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