A inteligência artificial é uma faca de vários gumes

Por Hamilton Werneck
26/11/18 - 10:00

São tantos os dados reunidos num Big Data cuja memória ultrapassa o que a humanidade escreveu, falou e pintou desde os primórdios da pedra lascada até hoje, com capacidade de processar dados aos milhões em frações de segundo que seremos facilmente monitorados muito além de uma foto enviada a um site para análise de células cancerígenas. Um chip implantado em qualquer parte de nosso corpo enviará dados tão precisos a uma central de Inteligência Artificial (IA) que as doenças poderão ser detectadas antes dos sintomas surgirem. A situação cardíaca será investigada além e mais rapidamente que o exame da proteína C reativa ultrassensível.

Se a internet das coisas facilita a nossa vida além de ativar as luzes da casa, os aquecedores de ambiente e o funcionamento do forno de micro-ondas, não restam dúvidas e tais fatos já deixaram o ambiente da ficção científica. Mas, a IA interferirá em nossa intimidade, atingindo a singularidade da pessoa, indicando músicas, alimentos, remédios, amigos, filmes e decisões profissionais, sociais e políticas.

Yuval Noha Harari, escritor e professor da Universidade de Jerusalém alerta para o fato destes Big Data estarem linkados às companhias de seguro ou às instituições onde uma pessoa trabalha. Em caso de desobediência a uma orientação de um robô bem informado a nosso respeito, podemos enfrentar o desemprego ou o não pagamento de seguros, em caso de falecimento ou invalidez, por negligenciarmos a orientação a ser seguida com o tempo necessário para evitar a doença e suas consequências.

É importante pensar nisso porque no sistema bancário já funciona assim, de modo impessoal. Nós falamos on line com nosso gerente da conta bancária, distante mais de 800 km, quando no passado recente um gerente ficava na porta da agência para conseguir aumentar a carteira de clientes. E quando solicitamos, hoje, algum empréstimo, não nos iludamos, o gerente à distância, consulta um robô e ele dirá se o empréstimo pode ou não ser concedido.

Inteligências artificiais comandam nossas vidas. O mais perigoso nessa invasão de privacidade que nós mesmos admitimos é a intromissão no campo afetivo. Robôs bem informados, conhecendo nosso perfil, podem enviar mensagens causadoras de alegria ou raiva. Em consequência, pessoas poderão cortar relações com outras, enquanto algumas amizades e ações solidárias ou desagregadoras podem ser desencadeadas, com a força dogmática das religiões.

Nesse aspecto não nos parece ser necessário discorrer sobre os acontecimentos no norte da África, quando da “primavera árabe”, nem sobre o Brexit, nem sobre a eleição de Putin, Trump ou outras pelo mundo. Os marqueteiros estão cedendo a vez para a IA.

O livro de dois professores de Harvard sobre “Como as democracias morrem” explica a ação dessas IA agindo acima das lideranças políticas dentro dos “portões” de cada partido, impedindo que a prudência real salve um sistema da falência democrática através da possível eleição de candidatos pouco comprometidos com tal sistema.

Já vivemos a internet das coisas, virtualmente podemos ter milhões de amigos e desembocamos na IA sem a reflexão necessária. Se ela, por sua vez, permite tantos avanços tecnológicos benéficos, nossas vidas não poderão ser regidas por ela a ponto de desfazermos grupos de amigos. As amizades dependem da singularidade, muito além dos dogmas religiosos e políticos e precisam continuar a serem estruturadas por força real e, não, pela virtualidade da Inteligência Artificial.


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