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A derrota

Por Rachel Rabello - 03 de Setembro de 2018, 09:41
A derrota

Escrevo após a eleição na Academia Brasileira de Letras. A primeira eleição da instituição que de fato me interessou. A razão de meu interesse foi a candidatura de Conceição Evaristo que, se eleita, seria a primeira mulher negra a ocupar uma das cadeiras da instituição. E não sou a única a me interessar especialmente por essa eleição, a candidatura de Evaristo foi a que teve mais apoio popular na história, com duas petições que somaram mais de 40 mil assinaturas (dados do Intercept Brasil). Aliás, foi por saber que tinha todo esse apoio que ela decidiu se candidatar – e não o contrário. A cadeira em questão era a de número sete, cujo patrono é ninguém menos que Castro Alves, o autor do poema Navio negreiro. 

Conheci a escrita de Evaristo há pouco tempo e por enquanto só li um dos seus seis livros: Olhos d’água (Pallas, 2015), que foi vencedor do prêmio Jabuti e que é de fato uma obra prima, na minha humilde opinião. Os contos que compõem o livro revelam personagens que estão à margem da sociedade, vozes que não estamos acostumados a escutar – nem nos livros, nem na vida. Mas, diferentemente de outros escritores que retrataram personagens marginalizados, a autora não o fez de modo caricato nem panfletário. Evaristo é ativista, mas não há dizeres de bandeiras em sua escrita, e sim um retrato da realidade que justifica a necessidade de bandeiras. Há vozes pouco ou nunca ouvidas, carregadas de dor, profundeza de alma e lirismo. Vozes que passam fome, que sofrem com a miséria, que vivem na criminalidade, que limpam nossas casas e servem nossas mesas. Vozes que nos assaltam e que estupramos diariamente em diversos níveis. Se uso o plural agora é porque me refiro a nós, homens e mulheres brancos, que somos sim privilegiados, sejamos pobres ou não. Porque ninguém nunca atravessa a rua quando vê um homem branco andando à noite. Porque ninguém nunca desconfia de uma mulher branca em uma loja, ainda que ela possa estar ali para roubar. Ninguém nunca achou que eu era uma empregada doméstica ao subir no elevador social de um prédio de luxo. Nossos privilégios são muitos, tantos que não caberiam aqui.

Mas se falo sobre o fato de Evaristo ser uma escritora negra que escreve sobre personagens negros e marginalizados, e se torço para que ela entre um dia na Academia Brasileira de Letras não é somente pelo fato de ela ser uma mulher negra, mas porque verdadeiramente acho que ela é uma excelente escritora. No entanto, para além de sua competência, acho sim que o fato de ela ser negra e de dar voz a personagens negros e marginalizados é algo que deve ser levado em conta. Principalmente se ela tem apoio popular de homens e mulheres negros (e brancos também). É a tal representatividade. Mas por que a ABL, uma instituição privada, deveria eleger uma mulher negra para representar as mulheres negras? Por que a ABL deveria se preocupar com representatividade? – indagam alguns. Fiquei encafifada quando li a afirmação de Domício Proença Filho, que foi presidente da ABL em 2016-2017: “É um equívoco achar que a Academia tem que fazer isso ou aquilo. A ABL é uma instituição privada sem fins lucrativos. É um clube de amigos”. O que me intrigou foi pensar por que damos tanta importância a um clube de amigos... Ora, se a ABL fosse simplesmente um clube de amigos, acredito que a sociedade brasileira como um todo – e aí incluo a elite intelectual e as demais castas da nossa sociedade – não daria tanta importância assim. A Academia Brasileira de Letras é muito mais do que um clube de amigos. É – ou deveria ser, já que membros como Sarney e Paulo Coelho contradizem o que vou dizer – o reduto dos maiores intelectuais e escritores brasileiros. A ABL é – ou deveria ser – uma amostra do que há de melhor na produção intelectual e literária no Brasil. Por isso, penso que a Academia não serve apenas a si mesma e ao seu clubinho de amigos, mas ao povo brasileiro: como diretriz, como demonstração de nosso brilhantismo para as nações estrangeiras e como espelho. Mas que ingenuidade, Rachel! – muitos devem pensar ao ler esse texto. Se for ingenuidade minha, que seja, prefiro a tolice à amargura. 

O fato é que Proença Filho está certo: a Academia é – e sempre foi? – um clube de amigos, reduto de, em sua maioria, homens brancos que trazem a sabedoria da terceira idade e dos livros mofados nas estantes. A Academia será roída por traças assim que o dinheiro acabar, se a única razão de sua existência for o que parece ser: o dinheiro. Os amigos do clube recebem para serem amigos – mil reais por encontro, fora a mesada de três mil.

Peço desculpas pelo cinismo, mas é difícil não ser cínico quando se fala em dinheiro. A casa de Machado caiu naquilo que ele tanto retratou em seus livros:  a ganância, a avareza e a arrogância dominando as relações e sentimentos humanos. 

Mas nem todas as academias são assim. A Academia Friburguense de Letras, por exemplo, vai na contramão disso tudo. Seus membros não recebem nada, ao contrário, investem dinheiro ali. Reúnem-se por prazer e por verdadeiramente desejarem conversar sobre literatura e aprender um com o outro. Em busca de renovação, a AFL abriu um Anexo Jovem, criando cadeiras para jovens escritores friburguenses. Eu fui uma das primeiras. Durante a FLINF (Festa Literária de Nova Friburgo), tivemos o evento “Academia de portas abertas”, em que recebemos as pessoas para conversar sobre as atividades dos acadêmicos, sobre a cultura da cidade, sobre o que quisessem conversar. Hoje a Academia visita escolas, oferece palestras e recebe semanalmente um clube de leitura. Registro aqui minha gratidão e profunda admiração pela AFL como um todo e, em especial, por Tereza Malcher e Robério Canto, que foram os presidentes responsáveis por tudo isso.

E sobre Conceição Evaristo, digo somente isto: a derrota é da Academia Brasileira de Letras.


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